Faese acompanha perdas no campo e reforça defesa de políticas para o agro

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“Estamos passando por uma seca verde.” A definição do produtor de leite Renato Dória, do município de Poço Redondo, resume a realidade enfrentada por produtores rurais em diversas regiões de Sergipe. Apesar de algumas precipitações registradas nos últimos meses, o volume de chuva não foi suficiente para garantir a reposição hídrica do solo, comprometendo o desenvolvimento da lavoura de milho, pastagens e a produção pecuária.

“A gente teve chuva, mas não foi uma chuva com capacidade hídrica. Estamos há mais de anos enfrentando dificuldades com água. Hoje, nosso maior custo é água. Estamos conseguindo nos sustentar pelas tecnologias que utilizamos na propriedade, pela adubação e pelo manejo, mas este ano não tem praticamente nada para aproveitar. A perda é de 100%”, relata Renato.
O cenário se repete em outras regiões do estado. Em Carira, o técnico da Agropecuária São Luiz, Bruno Santana viu a lavoura de milho se desenvolver bem nos primeiros estágios, mas sucumbir à combinação de altas temperaturas e redução das chuvas.
“A lavoura vinha bem porque, no início, a demanda hídrica é menor. Depois aumentou a insolação e diminuiu a pluviosidade. O resultado foi perda de 100% da produção. O produtor precisa de uma linha de crédito mais justa. Muitas vezes o Pronamp não atende a realidade e o crédito privado tem custos elevados. Além disso, o seguro rural não contempla toda a área produtiva”, afirma.
Falta de chuva agrava cenário já pressionado por custos elevados
A situação observada em Sergipe reflete um desafio que atinge produtores de diversas regiões do país. A irregularidade climática, associada aos efeitos do El Niño e de outros eventos extremos cada vez mais frequentes, aumenta a vulnerabilidade da produção agropecuária.
Para a analista do Núcleo Pecuário da Faese, Mikaele Alexandre, as visitas realizadas às propriedades revelam um cenário preocupante, especialmente para atividades dependentes de pastagens e da produção de grãos destinados à alimentação animal.
“A redução das chuvas afeta diretamente a disponibilidade de alimento para os rebanhos, aumenta os custos de produção e compromete a renda das famílias rurais. O produtor vem fazendo sua parte, investindo em tecnologia e gestão, mas existem fatores climáticos que fogem ao seu controle.”
Além dos impactos climáticos, o setor ainda convive com reflexos acumulados dos últimos anos. Desde a pandemia da Covid-19, os produtores enfrentam sucessivos aumentos nos custos de produção. O cenário foi agravado pelos efeitos geopolíticos globais, especialmente após a guerra entre Rússia e Ucrânia, que impactou diretamente o mercado internacional de fertilizantes, combustíveis e insumos agrícolas.
Margens apertadas e redução dos instrumentos de proteção
Segundo a analista econômica da Faese, Paloma Gois, o momento exige atenção para além da questão climática.
“Os desafios enfrentados pelo produtor hoje não são apenas climáticos. Temos um cenário de margens cada vez mais apertadas, custos elevados e uma redução dos instrumentos de proteção ao produtor. Nos últimos anos, observamos cortes importantes em programas como o Proagro e restrições nos recursos destinados ao seguro rural, justamente em um momento em que os eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes.”
Paloma destaca que a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e as federações estaduais, entre elas a Faese, vêm alertando o governo federal sobre a necessidade de fortalecer os mecanismos de gestão de risco.
“Temos participado de reuniões com o Ministério da Agricultura, Ministério da Fazenda, Banco Central e parlamentares para apresentar a realidade do campo desde o ano passado. O produtor precisa de previsibilidade para continuar produzindo. Seguro rural, crédito adequado e instrumentos eficientes de gestão de risco são fundamentais para garantir a segurança alimentar e a competitividade da agropecuária brasileira.”
A Faese acompanha as pautas debatidas em Brasília ao lado da CNA, levando aos formuladores de políticas públicas os relatos e as demandas dos produtores sergipanos.
Entre as pautas acompanhadas pela Faese e pela CNA está o Projeto de Lei 5.122, que propõe mecanismos para renegociação e reestruturação das dívidas rurais de produtores afetados por sucessivas crises climáticas e econômicas. A proposta não prevê isenção ou perdão de débitos, mas busca oferecer condições para que o produtor possa reorganizar seus compromissos financeiros.